...²

- Será que cê pode dar um abraço nesse pai?
- Não que ele mereça! Mas darei.
- Você acha mesmo que eu não mereço?
- Claro que sim!
- Eu vim  aqui pra te ouvir! Sei que cê tem muito a dizer.
- Cê tem certeza que quer ouvir tudo? Há tempos que espero por essa conversa!
- Eu sei que errei e tô aqui pra tentar consertar meus erros.
- Nunca é tarde, mas poderia ter sido muito mais cedo!
- E você acha que eu ainda posso ser seu pai? Você ainda quer que eu seja?
- Já quis muito mais! Com o tempo acabei me acostumando com um sujeito oculto, uma figura ausente, desconhecida, e até, inexistente.
- Mas eu nunca fui desconhecido! Cê me conhece!
- Eu sei quem você é, é diferente!
- Diferente?
- Claro! Sei quem você é, de quem é filho e de quem deveria ser pai! Mas eu não te conheço! Não sei o que você mais gosta de fazer, o esporte preferido, a música, filme, programa de tv... Não posso dizer que conheço alguém apenas por que sei que ela existe! Assim como você também não me conhece!
- Mas o que sua avó fez comigo...
- Eu não tenho nada a ver com qualquer problema entre você e minha avó! Não tive culpa e não deveria ter pago por isso, ao passo que penso que isso não passa de uma desculpa sua!
- Desculpa?
- Claro! Eu cresci sem você. Tive que crescer sem você! E todos dos dias dos pais, todo ano no seu aniversário eu lembrava. Mas nem seu telefone eu tenho mais! E também pensava se você ainda lembraria do meu aniversário.
- 11 de julho...
- Não importa agora! A questão é que eu cresci sentindo desprezo, de ambos os lados! Sempre me perguntei por que você não me amava...
- Mas eu te amo...
- Não espere que eu acredite! Você nunca se esforçou, se quer se moveu, para que eu me sentisse amado ou desconfiasse de algo assim da sua parte! Eu tive que crescer tentando achar uma justificativa que me convencesse que eu não era merecedor de ter o amor do pai enquanto que a mãe e a família dela sempre me trataram como o primeiro!
- Eu sei que eu errei e estou disposto a mudar, e...
- Cê já me disse isso uma vez, e meu erro foi acreditar! Me disse que não queria mais ficar longe, que queria participar da minha vida, queria me ver crescer... Blá,blá, blá... Isso já tem onze anos! E cê lembra quantas vezes cê me viu nesses onze anos? Três! Poderiam ter sido quatro, mas cê não quis falar comigo na rodoviária e ainda teve coragem de dizer a minha mãe que foi por que eu te tratei mal na praia da última vez que tinha me visto.
- Mas cê tava indo viajar! Eu soube que cê tava indo pra Belo Horizonte...
- Cê não sabe nem do que eu tô falando! Isso tem quatro anos! E tem menos de três que eu tô em BH!
- Tá, só lembro que cê tava indo viajar, então deve ter sido para Eunápolis...
- Deve ter sido! Não costumo passear em rodoviárias! E seria a primeira vez, em dezessete anos que  eu poderia ter te dado um abraço de dia dos pais. Mas isso não interessa agora!
- Cê tá muito magoado comigo né?
- Obvio não?! Que cê queria que eu fizesse? Engolisse uma vida sem pai e sorrisse pra você e pulasse no seu colo pedindo abraço? Aí já é masoquismo!
- Mas cê também não me ligava, não dava notícias...
- Não sou eu o seu pai! Não te pedi pra nascer nem sou responsável por você! Nunca tive obrigação, uma vez que não havia reciprocidade! Não fui eu quem fiz pouco caso do seu interesse!
- Cê tá certo! Eu é que tô errado em tentar me justificar! Errei e tô querendo concertar pô!
- A gente pode até vir a ser amigo, quem sabe um dia, até, conseguir construir uma relação pai-e-filho, mas nada vai preencher a lacuna de mais de vinte anos de ausência! O máximo que eu vou conseguir fazer é cobrir esse buraco, mas nunca tapá-lo.
- Cê vai deixar eu tentar?
- Dessa vez eu pago pra ver! Pode ser mais uma tentativa fadada ao fracasso! Não espero com bons olhos, devido à ultima experiência e espero, francamente que cê me mostre que eu tô errado! Mas se não mostrar, não vai ser surpresa!
- Não fala assim. Eu vou te ligar!
- Eu vou aguardar! É só o que posso dizer!
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1 Response to "...²"

  1. Patty Menezes Says:
    9 de abril de 2010 às 09:49

    Estou aqui na minha aula de nota fiscal eltrônica, chorando por ler essa conversa. De pensar que no íntimo de minhas orações foram vários pedidos para que um dia esse encontro acontecesse. Enquanto há vida, tudo pode mudar... Abra seu coração e liberte dessa mágoa e aproveite a oportunidade que a vida está dando pra vcs... Assim futuramente vc será um pai ainda mais MARAVILHOSO para sua Manu....